A infantilização nas redes sociais: a que estamos nos prestando?

Parece comentário de tio ranzinza ou do que se chama de uma “pessoa mal amada”, mas o fato é que estamos vivendo uma onda de infantilização nas redes sociais, com comportamentos que rolam ladeira abaixo a cada postagem.

Ok, vamos tentar pegar leve: diversão é bom e não faz mal a ninguém. No entanto, o desespero por atenção, a corrida por likes e a necessidade neurótica de marcar território tem feito muita gente se prestar a papéis duvidosos com dancinhas, caras e bocas e dublagens capazes de colocar em xeque a própria credibilidade. Incluam-se aí também a exposição exagerada de dramas pessoais e o frenesi para comentar e opinar sobre tudo, como a criança que chora pelo brinquedo quebrado ou reclama pelo doce que foi roubado pelo coleguinha. O negócio é ter um naco de atenção, às vezes a qualquer preço.


Uma brincadeirinha de vez em quando até que vai. Mas quando a infantilização vira pauta e é perseguida com afinco torna-se uma espécie de vício, um caminho sem volta. Virou tendência parecer bobalhão. Fazer esforço para ser “descolado” tem ocupado a agenda de muita gente. Como que para fugir do enfrentamento dos reais problemas (incluam-se aí nossos medos e falhas), gastamos horas produzindo conteúdo vazio, cuja duração vai somente até o próximo post na rolagem da tela.

É triste, mas cada vez mais, os aplicativos têm mandado em nossas vidas. Para uma boa parcela, eles determinam se “existimos ou não”. Quem não os usa está condenado a não ter voz e vez na tal “pós-modernidade”, que tem custado nossa saúde mental. Vale mais registrar os momentos do que vivê-los de verdade. Louco isso, não?


Mas convenhamos: cada um faz da sua vida o que quer, não é mesmo? Se a pessoa gasta horas todos os dias para se expor de forma infantilizada nas redes sociais é problema dela e ponto. Quem não quer ver que delete as redes sociais e vá abrir um bom clássico para ler. Concordo, assino embaixo.

No entanto, como o mundo “ainda” não se encerra na esfera virtual, existe a convivência. E é nela que vemos os frutos das nossas estripulias virtuais. Então, acompanhe comigo um raciocínio baseado naquela velha máxima: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?” (Propaganda histórica de 1984). Ou seja: estamos nos infantilizando na vida real e mostrando o resultado na internet ou estamos nos infantilizando com a ajuda dos apps e trazendo este comportamento para nossas relações do cotidiano? Agora apertou.


É claro que não existe resposta e esta é uma provocação somente para começarmos a refletir um pouco mais sobre o ritmo com que estamos conduzindo nossa evolução como humanidade. O assunto parece bobo e problematizá-lo soa como coisa para quem não tem nada a fazer. Mas, sinceramente, ando me questionando sobre como estamos construindo nossas identidades. E mais, como as novas gerações estão formatando suas trajetórias, baseadas em modelos rasos, em que se supervaloriza o efêmero em detrimento de concepções um pouco mais significativas no modo de ser e estar.

É uma pena que a ignorância e idiotice estejam sendo pintadas com o verniz do “descolamento e da modernidade”. Será que já se foi o tempo em que se valorizava o conhecimento, o estudo, a pesquisa, a ciência e a sabedoria? No caldeirão das relações têm sobrado futilidade e alienação. Como resultado, ansiedade e depressão tomam conta. Vamos continuar a ser humanos ou nos tornaremos memes de nós mesmos?


Antigamente, falava-se na política do “pão e circo” para ludibriar as massas. Infelizmente, até o pão se foi. Só ficou o circo, que está com a lona cada vez maior, catapultando nosso tempo, energia e capacidade de construir narrativas privadas e públicas relevantes.


Mas, como disse no início do texto, cabe a cada um o distanciamento crítico e a decisão de não dar ainda mais audiência para a infantilização. Como a internet é um fenômeno relativamente novo (chegou ao Brasil em 1995) temos a justificativa de ainda estar aprendendo a navegar nessas ondas virtuais tão instáveis e mutantes. Vamos ainda encontrar o ponto de equilíbrio? Ou o caminho é sem volta?


Até que as respostas comecem a surgir, que possamos tentar elevar o nível. Melhor: que possamos ter um pouco mais de propósito. Ou simplesmente deixar para lá. Tem sempre um livro na cabeceira nos esperando.