"Me engana que eu gosto": A onda fake produzida pelo marketing digital


CEO, empresário, diretor, influencer, coach, diretor, líder e por aí vai. No mundo digital o que vale é o superlativo. Tudo ganha contornos de grandiosidade. O algoritmo aceita tudo. E como não há ninguém para checar os fatos em si, vendem-se mais “gatos por lebre” do que a gente imagina. Descaradamente, há quem minta sem pudor sobre as próprias credenciais na tentativa desesperada de imputar-se valores e credibilidade que demandariam muito, mas muito esforço, estudo e doses de realidade.


Não há nada de errado em se valorizar e dar peso a próprio trabalho, realizações e esforço. Aliás, que façamos isso de forma natural e responsável. Mas o buraco está mais embaixo. Num oportunismo desenfreado, muita gente tem inflado o ego com as nomenclaturas da moda em busca de redenção na selva capitalista em que vivemos. Basta abrir as redes sociais para constatar tudo isso no primeiro minuto de navegação.

Coragem e ousadia ou desfaçatez e cara de pau? O livre arbítrio está aí para ser usufruído. Cada um faz o que quer, do jeito que quer. Mas o fato é que tem muita gente se enganando e enganando aos outros de forma muito irresponsável e desastrosa.


Ao criar uma realidade paralela para si e vender isso como verdade, contribui-se para o adoecimento alheio. Sim, a mentira digital tem implicações maiores do que nossa malícia pode captar. Toda mensagem gera impacto. Todo conteúdo resulta num fim. Já pensou nisso? Padrões inalcançáveis de sucesso e felicidade são vendidos como se fossem uma receita de bolo. Nunca existiu tanta gente com “vidas incríveis”. Até há alguns anos somente a mídia convencional tinha responsabilidade nesse “me engana que eu gosto”. Mas agora, a artificialidade se alastrou de tal forma nas redes sociais, que as pessoas se tornaram personagens de si, com a dura tarefa de sustentar a mentira para não correr o risco de cair no ostracismo.


É um horror quando constatamos o quanto se mente por aí. Eu mesmo já participei de cursos em que em algum momento o ministrante ensinou técnicas para “inflar” o currículo. Lembro bem de quando aconselharam vestir um blazer da moda e fazer uma expressão para passar uma “imagem séria e gerar autoridade”. A escolha, porém, é pessoal. Entendo que existe um “modelo de sucesso”, vendido exaustivamente para gerar lucro. Embarca quem quer. Mas é assustador ver pessoas que você conhece, e sabe das verdadeiras lutas, mentido descaradamente para tentar vender aquilo que não se é. A confusão gerada entre a realidade e a projeção pode gerar feridas profundas. Mas isso é papo para outro texto.


Voltando à lógica do “me engana que eu gosto”, é preciso ficar de olhos bem abertos para não cair nos engodos do marketing digital desenfreado. Não se trata de negar as ferramentas modernas de venda e troca de informações. Mas tem gente perdendo muito tempo e dinheiro, o que significa que do outro lado tem outro punhado ganhando com as ilusões e carências alheias. De novo: cada um acredita e abraça a causa que quer. Mas já estamos crescidinhos o suficiente para começar a desconfiar um pouco mais nas “vidas perfeitinhas” pregadas por aí todos os dias.


É preciso afinar o senso crítico, fugir dos deslumbramentos e se basear um pouco mais na realidade. Uma dose de ceticismo evita estragos emocionais e nos deixa muito mais no controle de nós mesmos. Ter os pés no chão nunca fez mal a ninguém.


(Copyright Fabiano Latham 6202021)


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