Hoje eu dancei numa praia gelada e deserta



Pela primeira vez, eu dancei na areia de uma praia gelada. A reunião tinha acabado quase 5. Olhei pela janela e ainda havia algumas frestas de luz no céu. É inverno. Consultei a previsão e a temperatura era de -12 graus. O sol ia se por em poucos minutos.


Moro em frente à praia há poucos meses. Pensei: “Essa será a primeira vez que vou caminhar numa praia gelada”. Calça de moleton, duas blusas, luvas, gorro e tênis. Desci do décimo terceiro andar e ao abrir a porta do lobby do prédio, uma lufada de vento cortante quase me fez mudar de ideia. Mas, ter mais contato com a natureza está na minha lista de resoluções de Ano Novo.

Atravessei a avenida. Pise na areia dura, somente marcada pelas pegadas de pássaros, milhares de conchas meio encravadas na areia, e uma ou outra marca de pisada humana. Comecei a andar. O vento parecia ficar mais gelado. Insisti.

Liguei o Spotiy e procurei uma música relaxante. Me lembrei do primeiro CD da Enya que me foi apresentado quando eu tinha 16 anos. Play. A música começou me envolver. As ondas tímidas, o sol desaparecendo cada vez mais. Me deixei levar.

Quando percebi, estava andando de fasto. Quando criança, não podia fazer isso. Era pecado. Atraía “coisa ruim”. Me empolguei. Comecei correr de fasto. Eu estava sozinho numa extensão de uns 3 quilômetros. Os prédios iam ficando para trás, os carros da avenida passavam em direção contrária. Um avião distante cruzava o céu, que já estava meio roxo-amarelado, pronto para escurecer. Do fone de ouvido, “Caribbean Blue” começou a ditar meus movimentos. Tirei as mãos do bolso. Coragem. Abri os braços, comecei a esticar os passos. Estou dançando? Sim! E porque não?

Eu posso dançar na praia gelada e deserta. Eu posso ser livre. Eu posso me movimentar como eu quiser. Dei pulos, cruzei as pernas, andei de lado. Corri um pouco, dei uns saltos. Liberdade. Louco isso, não? Me entreguei ao momento presente. Sem preocupação, sem julgamentos, sem censura. Não tenho idade, não tenho papéis, não tenho regras, não tenho padrões. Ali, naquele momento, eu simplesmente SOU.

O frio parece aumentar ao mesmo tempo em que meu corpo simula se aquecer por causa dos movimentos. Que sensação boa. Maravilhosa, orgástica. Eu posso dançar, eu posso correr, eu posso girar, abrir os braços, o coração e a alma, no meu momento, no meu mundo. Uma pessoa bem ao longe caminhava com o cachorro. Minha única expectadora naquele momento. Bom seria se ela se juntasse a mim. Segui.

Por que não fiz isso antes? Por que não faço isso mais vezes? Eu posso escolher estar 100% presente e explorar meu corpo, meus limites. Sim, eu posso. Até porque, e se eu morrer amanhã? E se eu for atingido por um carro? E sua uma doença sorrateira me pegar? E se eu perder minha sanidade? E se tudo mudar e de repente eu não tiver mais minha liberdade, minhas escolhas? Tudo vai acabar. Essa é a única certeza da vida.

Pensar nisso me trouxe ainda mais euforia. Comecei a rir alto. Dei socos no ar. Se alguém viu e pensou que eu estivesse num ataque de loucura, se enganou. Eu estava era exercendo minha liberdade selvagem. Um bicho solto em seus instintos. Foi quase um transe. Antes que você pense que eu estava sob efeito de drogas, saiba que a última taça de Merlot que bebi foi no final de semana. Ah, e antes do meu “devaneio de um dia de inverno” eu só tomei um café gigante para aguentar duas horas de reunião.

Escureceu mais. E minhas mãos congelaram quando eu tirei o celular do bolso para registar um vídeo daquele momento mágico. O momento era meu, mas eu queria compartilhar com você, que agora está lendo este relato.

Olhei para a extensão da praia. Vi me prédio lá no fim. Era hora de voltar. Leve, aliviado. O melhor de tudo é saber que, aconteça o que acontecer, amanhã o sol vai nascer de novo. E em pouco meses a praia já não estará mais tão gelada. E será tempo de dançar de novo. Vida, viver.


youtube.com/fabianoftwitter.com/fabianoautor

instagram.com/fabianoautor

facebook.com/fabianoautor

facebook.com/fabianoferreirautor