Entenda de vez: "Não somos o que mostramos nas redes sociais"


É preciso entender de uma vez por todas: a rede social é uma representação ínfima e totalmente editada do que é nossa vida de verdade. Não adianta forçar a barra dizendo que passamos a verdade, que somos autênticos, isso ou aquilo. Gente, para de ilusão! Tiramos 100 fotos, passamos um tempão escolhendo a melhor, depois ainda cortamos um pedaço, aplicamos um filtro aqui, um retoque ali. E ainda escolhemos ícones, sentimentos, descrições pré-prontas blá, blá, blá.


Ok, alguns posts se aproximam mais da realidade. Guardemos as proporções e levemos em conta os contextos (generalizar é burrice). No entanto, principalmente no Instagram e nos stories da vida, a tentação em manipular a realidade é gigantesca. A tecnologia de edição na ponta dos dedos virou o brinquedinho favorito para projetar nossos desejos, nosso ego, nossa necessidade de reconhecimento e aprovação.


Tudo bem, o mundo não vai acabar porque fazemos isso. Quantos filtros já apliquei nas minhas fotos e continuo vivo (inclusive questionando isso, fazendo mea-culpa). Mas o problema é mais embaixo. O X da questão é achar que o que vemos é verdadeiro, espontâneo, natural, corriqueiro. Não é. Repito: não é. Talvez seja para as celebridades, para quem tem muita grana, ou para quem tem assessor pessoal para gerenciar a carreira. Mas para os mortais, a vida está bem longe de ser essa beleza que publicamos nas redes sociais. Nossas identidades têm se diluído num grande jogo de marketing, que tem a métrica dos likes e visualizações como parâmetro para validação da nossa existência. Que pena.


O preocupante é que tem muita gente se achando mais do que é. Tem gente se projetando de um modo que não consegue reproduzir na prática. Tem muita gente passando a imagem de que é mais legal, politicamente correto e bonzinho do que jamais foi ou está longe de ser (pois ainda precisa de muito autoconhecimento e lapidação moral e emocional). Esse esforço adoece e aniquila qualquer possibilidade de auto-aceitação e reconhecimento dos próprios limites. A desumanização provocada pelas mídias sociais deve sim ser pauta para nossas discussões.


Não se trata de condenar, julgar ou apontar o dedo. Afinal, se estou aqui compartilhando essas reflexões é porque eu próprio uso as redes sociais e vez ou outra me deleito com as ferramentas de edição. Mas, preste atenção: a diferença entre o veneno e o remédio está na dose. O fato é que está passando da hora de paramos de achar que a vida do outro está “bombando” como ele faz parecer. Não está. Talvez “esse outro” esteja até num buraco mais fundo que o seu, mas criou uma carapaça tão convincente que faz com que você caia na armadilha do “mundoperfeitinhosóquenão”.


Sejamos sinceros: viver é padecer. E isso é inerente à nossa condição humana. Temos muitos perrengues(alguns muito mais do que você imagina). O dia-a-dia é mais recheado de problemas e imprevistos do que aquele momento gourmet ou carão das postagens. O sol racha os miolos, os boletos vencem, o vizinho faz barulho, a criança fica doente, um idiota te fecha no trânsito. E não para por aí não: tem de descer o lixo, lavar roupa, fazer comida, aguentar o chefe mal humorado, pagar imposto de renda, atender o cliente mal educado. O político mente, seu parceiro te trai, um problema de saúde surge do nada, a família briga, a pia entope. E mais: tem de competir, competir e competir. Não fez, não foi, não aproveitou? Ficou para trás, já era. Estaríamos nos tornando efêmeros, descartáveis?


Definitivamente, a vida não funciona como vemos nas redes sociais. É inegável que ela retrata uma parte do que vivemos. Mas a complexidade humana vai muito além dos cliques, posts e likes. Voltemos para a vida real. Felizmente, o sol continua a brilhar lá fora.



Fabiano Latham é jornalista e autor dos livros "Enfrente", "Agora Vai", "Aprendendo com os Mestres" e "Norma Vilar - 25 anos de arte".



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